Como funciona o coração humano

Feche a mão. Esse é mais ou menos o tamanho do seu coração, um órgão de cerca de 300 gramas que, em repouso, costuma bater de 60 a 100 vezes por minuto. No fim de um dia, são perto de 100 mil batidas, e o sangue bombeado passa de 7 mil litros, sem pausa e sem que você precise pensar nisso. Parece muito para um músculo do tamanho de um punho. Saber como funciona o coração humano ajuda a entender também por que os médicos dão tanta importância a pressão, colesterol e falta de ar.
Duas bombas lado a lado
O coração fica no meio do peito, levemente voltado para a esquerda, e não totalmente à esquerda como muita gente imagina. Na prática, ele funciona como duas bombas coladas, separadas por uma parede de músculo. O lado direito recebe o sangue pobre em oxigênio e o envia aos pulmões. O lado esquerdo recebe o sangue oxigenado e o despacha para o corpo todo.
Cada lado tem duas câmaras. O átrio, na parte de cima, recebe o sangue. O ventrículo, embaixo, é a parte forte que empurra. O ventrículo esquerdo tem a parede mais grossa, porque precisa mandar sangue até a ponta dos pés, enquanto o direito só precisa alcançar os pulmões, que ficam ao lado.
Acompanhe uma gota de sangue
A melhor forma de entender o caminho é seguir uma gota, partindo do momento em que ela volta de uma perna, já sem boa parte do oxigênio:
- A gota sobe pelas veias e chega ao átrio direito.
- Passa pela valva tricúspide e entra no ventrículo direito.
- É empurrada pela artéria pulmonar até os pulmões.
- Nos pulmões, libera gás carbônico e recebe oxigênio, mudando para um vermelho mais vivo.
- Volta pelas veias pulmonares ao átrio esquerdo.
- Atravessa a valva mitral e chega ao ventrículo esquerdo.
- Sai pela aorta, a maior artéria do corpo, e se distribui para todos os órgãos.
Em repouso, um adulto faz passar por esse trajeto em torno de 5 litros de sangue por minuto, e cada gota pode completar o circuito em menos de um minuto. Durante uma corrida, esse volume pode aumentar muito.
O cérebro é um dos maiores clientes dessa rede. Em uma pessoa adulta, ele recebe por volta de 15% do sangue bombeado em repouso, mesmo pesando bem menos que o restante do corpo. É daí que vem a energia para atividades como as descritas no texto sobre como funciona a memória humana.
O tum-tá é o som de portas fechando
Muita gente pensa que o barulho do coração é o músculo batendo. Na verdade, é o fechamento das valvas, portinhas que obrigam o sangue a seguir em um só sentido. O primeiro som, mais grave, vem do fechamento das valvas entre átrios e ventrículos. O segundo, mais curto, vem das valvas na saída dos ventrículos. Quando uma valva não fecha bem ou abre com dificuldade, o fluxo faz um ruído que o médico chama de sopro. Nem todo sopro indica doença, e só uma avaliação pode dizer do que se trata.
O marca-passo que veio de fábrica
O coração tem eletricidade própria, e é por isso que continua batendo por um tempo mesmo fora do corpo, como acontece no transplante, se receber oxigênio e cuidados. Um pequeno grupo de células no átrio direito, chamado nó sinoatrial, dispara o sinal que dá início a cada batida. O impulso se espalha pelos átrios, passa por um segundo ponto, o nó atrioventricular, que dá uma breve pausa para os ventrículos encherem, e desce por fibras especializadas até fazer os ventrículos contraírem.
O sistema nervoso e os hormônios regulam a velocidade. Um susto libera adrenalina e dispara o ritmo, enquanto o descanso faz o contrário. Quando o sinal elétrico falha, surgem as arritmias, que podem ser sentidas como batidas fora do compasso. O eletrocardiograma registra justamente essa atividade elétrica, e os aparelhos de marca-passo são usados quando o ritmo natural não dá conta.
O que a pressão arterial mede
Cada batida empurra o sangue contra a parede das artérias. A medida tem dois números, em milímetros de mercúrio. O maior, a sistólica, é a pressão no momento da contração. O menor, a diastólica, é a pressão durante o relaxamento. Quando se fala em “12 por 8”, a pessoa está falando de 120 por 80 mmHg, valor geralmente usado como referência.
A pressão alta muitas vezes não dá sintoma, e por isso merece medidas periódicas. Com o tempo, o esforço extra pode prejudicar o coração, os rins, os olhos e os vasos do cérebro. O valor adequado e a necessidade de tratamento devem ser avaliados por um médico, considerando cada caso.
O coração também precisa de sangue
Apesar de estar cheio de sangue por dentro, o músculo cardíaco não se alimenta daquilo que passa nas câmaras. Quem o abastece são as artérias coronárias, que correm por fora, como uma coroa. Ao longo dos anos, placas de gordura e outras substâncias podem estreitar esses vasos, processo chamado de aterosclerose. Se uma placa se rompe e um coágulo fecha a passagem, parte do músculo fica sem oxigênio. É o infarto.
Pressão alta, colesterol elevado, diabetes, cigarro, sedentarismo e histórico familiar aumentam esse risco, por isso aparecem tanto nas consultas. Sintomas que merecem atendimento imediato incluem:
- Dor ou aperto no peito, às vezes com irradiação para braço, costas, pescoço ou queixo.
- Falta de ar, suor frio, enjoo ou mal-estar repentino.
- Em mulheres e idosos, sinais menos típicos, como cansaço forte, sem a dor clássica.
Nesses casos, ligue para o SAMU no 192 ou procure um pronto-socorro. Tempo faz diferença, e essa não é uma situação para esperar passar em casa ou se tratar por conta própria.
Uma doença brasileira e um pioneirismo paulista
Em 1909, o médico mineiro Carlos Chagas descreveu, no interior de Minas Gerais, a doença que leva o seu nome. Em um feito raro na história da medicina, ele identificou o parasita, o inseto transmissor, o barbeiro, e o quadro clínico. A doença de Chagas pode atingir o coração muitos anos depois da infecção, provocando aumento do órgão e arritmias. Até hoje ela continua entre as causas de insuficiência cardíaca que levam pacientes à fila de transplante no país.
O Brasil também aparece na história da cirurgia. Em 26 de maio de 1968, poucos meses depois do primeiro transplante de coração do mundo, feito por Christiaan Barnard na África do Sul, uma equipe chefiada por Euryclides de Jesus Zerbini fez o primeiro da América Latina, no Hospital das Clínicas da USP. O paciente, o lavrador João Ferreira da Cunha, sobreviveu por 28 dias. O conhecimento sobre rejeição ainda era limitado, e levou tempo para os resultados melhorarem bastante.
Bichos e números que impressionam
O coração humano começa a bater bem cedo: em torno de três semanas depois da fecundação, antes de muitas mulheres saberem que estão grávidas. Daí em diante, ele não tem folga. Ao longo de 80 anos de vida, um coração soma perto de 3 bilhões de batidas.
Na natureza há extremos. Um beija-flor em voo pode passar de mil batimentos por minuto. Já a baleia-azul tem um coração do tamanho de um carro pequeno e, ao descer a grandes profundidades, pode bater apenas poucas vezes por minuto. Entre nós, o ritmo muda de acordo com a idade, o sono e o preparo físico, e atletas costumam ter pulso mais baixo em repouso porque cada batida empurra mais sangue. Se o seu pulso parecer estranho ou você tiver dúvidas sobre os seus exames, leve a questão ao seu médico ou à unidade básica de saúde.