Extinção dos dinossauros: o que a ciência descobriu

Em uma antiga pedreira na cidade de Paulista, na região metropolitana do Recife, existe uma fina camada de rocha que guarda o registro de um dos piores dias da história da vida na Terra. A Mina Poty é um dos raros lugares do Brasil onde se pode ver a marca do fim do período Cretáceo, há cerca de 66 milhões de anos. A extinção dos dinossauros está escrita em camadas assim, espalhadas pelo planeta, e foi lendo essas páginas de pedra que os cientistas montaram a investigação.

A pista que veio de um metal raro

Até a década de 1970, as explicações eram muitas: mudanças lentas de clima, doenças, plantas venenosas, mamíferos comendo ovos. Nenhuma se sustentava. A virada começou na Itália, perto da cidade de Gubbio, onde o geólogo americano Walter Alvarez estudava uma camada fina de argila que separava as rochas do Cretáceo das rochas seguintes.

Ele levou a amostra para o pai, Luis Alvarez, físico ganhador do Nobel. Com os colegas Frank Asaro e Helen Michel, mediram a quantidade de irídio, metal raríssimo na crosta terrestre e bem mais comum em asteroides. A concentração era muitas vezes maior que o normal. Em 1980 publicaram a hipótese ousada: um asteroide gigante havia atingido a Terra.

A ideia foi recebida com desconfiança. Faltava o principal, que era a cicatriz da batida. Mas a mesma camada de irídio foi aparecendo em outros cantos do mundo, entre eles o litoral de Pernambuco. Na Mina Poty, pesquisadores encontraram irídio elevado, sinais de ondas gigantes e uma mudança brusca nos fósseis marinhos.

A cratera escondida na península de Yucatán

A prova apareceu no México. Geofísicos de uma empresa de petróleo já tinham notado uma estrutura circular enterrada perto da vila de Chicxulub, na península de Yucatán, e em 1991 ela foi ligada ao impacto. A cratera tem cerca de 180 quilômetros de diâmetro, parecidos com a distância de estrada entre o Rio de Janeiro e Juiz de Fora. O asteroide tinha algo em torno de 10 quilômetros de largura.

Para comparar: é um objeto mais ou menos da altura de um avião de carreira em cruzeiro. Ele chegou a uma velocidade de dezenas de quilômetros por segundo e atingiu uma área rica em rochas com enxofre, um azar a mais para a vida no planeta.

O que aconteceu nas horas e nos anos seguintes

A reconstrução dos cientistas sugere uma sequência rápida e devastadora:

  1. Impacto: a energia abre a cratera e lança rocha pulverizada para fora da atmosfera.
  2. Tsunamis: ondas enormes varrem o Golfo do México e muito além.
  3. Chuva de fragmentos: material em brasa volta a cair, aquecendo o ar e iniciando incêndios em várias regiões.
  4. Escuridão: fuligem, poeira e gotículas de enxofre bloqueiam a luz do Sol por meses ou até alguns anos.
  5. Inverno de impacto: as temperaturas despencam e a fotossíntese quase para, derrubando a base da cadeia alimentar.
  6. Colapso: plantas morrem, os herbívoros ficam sem comida e os carnívoros vão em seguida.

Não foi apenas uma questão de ser atingido pela explosão. Grande parte dos animais morreu de fome e de frio. Estima-se que cerca de 75% das espécies tenham desaparecido, incluindo seres marinhos como as amonites, moluscos de concha espiralada, e os grandes répteis do mar.

E os vulcões da Índia?

Há outro suspeito. Mais ou menos na mesma época, enormes erupções formavam os Traps de Deccan, na atual Índia. Durante centenas de milhares de anos, a lava cobriu áreas gigantescas e lançou gases na atmosfera. Parte dos pesquisadores defende que esses vulcões já pressionavam os ecossistemas antes do impacto, enquanto outra parte atribui a eles um papel menor. Hoje o asteroide é considerado o gatilho principal, e a discussão é sobre quanto o vulcanismo pesou na conta. Para entender a força desses fenômenos, veja como se formam vulcões e terremotos.

Os dinossauros não acabaram: você vê um no quintal

A frase parece provocação, mas é consenso entre paleontólogos. As aves descendem de um grupo de dinossauros carnívoros com penas, o mesmo do velociraptor. Do ponto de vista da classificação, elas são dinossauros que sobreviveram. O que sumiu 66 milhões de anos atrás foram os chamados dinossauros não avianos, como o tiranossauro e o tricerátopo. A galinha do terreiro e o bem-te-vi do fio de luz são parentes vivos dessa linhagem.

Por que algumas criaturas escaparam? Não há uma resposta única, mas o padrão dos fósseis oferece pistas:

Grupo Destino Possível vantagem ou problema
Grandes dinossauros Extintos Precisavam de muita comida, com pouca capacidade de se esconder
Aves pequenas Parte sobreviveu Bicos e dieta de sementes, que resistem no solo
Mamíferos pequenos Parte sobreviveu Tocas e dieta variada
Crocodilos e tartarugas Sobreviveram Vida na água doce e metabolismo lento
Pterossauros Extintos Répteis voadores, que não eram dinossauros

Sem os grandes répteis, os mamíferos encontraram espaço para se diversificar. Ao longo de milhões de anos surgiram baleias, morcegos, elefantes e primatas. Nenhum ser humano viu um tiranossauro: os dois estão separados por mais de 60 milhões de anos, apesar do que os desenhos animados mostram.

O Brasil tem seus próprios gigantes

Os dinossauros viveram por mais de 160 milhões de anos, desde o período Triássico, e o território brasileiro guarda fósseis de boa parte dessa história. Alguns dos mais antigos do mundo foram achados no Rio Grande do Sul, como o Staurikosaurus. Outros lugares importantes para a pesquisa:

  • Peirópolis, em Uberaba (MG): bairro rural famoso por fósseis e por um museu dedicado aos dinossauros.
  • Bacia do Araripe (CE): conhecida pela preservação de peixes, plantas e pterossauros.
  • Maranhão: ali surgiu o Oxalaia, um predador grande com focinho alongado.
  • Interior de Minas Gerais: origem do Maxakalisaurus, um titanossauro que integrava o acervo do Museu Nacional, no Rio.

O incêndio que atingiu o Museu Nacional em 2018 destruiu grande parte do acervo de paleontologia e de outras áreas, e a recuperação das peças possíveis virou um trabalho de anos. Por isso, parte dos pesquisadores vê esses sítios como patrimônio a ser protegido com urgência.

Poderia acontecer de novo?

Asteroides desse porte são raríssimos, com intervalos estimados de dezenas de milhões de anos ou mais. Astrônomos monitoram os objetos próximos da Terra e a maior parte dos grandes já foi catalogada. Em 2022, a missão DART, da NASA, conseguiu desviar um pequeno asteroide lançando uma sonda contra ele, sem qualquer risco para o planeta. Foi o primeiro teste de que uma mudança de rota é possível.

Os dinossauros não tiveram telescópios nem sondas. Tiveram apenas o azar de estar aqui em um dia em que uma rocha do tamanho de uma cidade estava no caminho. Em Paulista, aquela faixa de pedra continua no lugar, com uma assinatura química vinda de longe e o ponto final de uma era que durou muito mais do que a nossa até agora.

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