Grandes Navegações: viagens, Tordesilhas e efeitos no Brasil

Em setembro de 1522, um navio em péssimo estado entrou em um porto espanhol com 18 europeus famintos a bordo. Três anos antes, a mesma expedição havia partido com cinco embarcações e cerca de 240 homens. Seu comandante, Fernão de Magalhães, tinha morrido nas Filipinas, mas os sobreviventes, liderados por Juan Sebastián Elcano, acabavam de provar na prática que era possível dar a volta ao mundo. Esse foi o auge das Grandes Navegações, um movimento que ligou continentes, enriqueceu reinos europeus, destruiu povos e colocou o Brasil no mapa de Portugal.

Tudo por pimenta, cravo e noz-moscada

No século XV, as especiarias valiam muito na Europa. Serviam para dar sabor à comida, além de uso em remédios e perfumes. Vinham da Ásia, por rotas longas que passavam por vários intermediários, entre eles mercadores árabes e as cidades italianas de Veneza e Gênova. Quando os turcos otomanos tomaram Constantinopla, em 1453, o controle dessas rotas ficou ainda mais complicado e os europeus tiveram ainda mais motivo para procurar um caminho marítimo direto.

Outros interesses pesavam também: a busca por ouro, a expansão do cristianismo e o desejo dos reis de aumentar poder e renda.

Por que Portugal saiu na frente

Um reino pequeno, de pouca gente, liderou a corrida por vários motivos. O país estava unificado desde cedo, tinha uma longa costa atlântica e uma tradição de pesca. A burguesia comercial buscava novos mercados, e a Coroa apoiava as expedições. O infante dom Henrique, conhecido como o Navegador, foi o grande incentivador das viagens pela costa africana.

A tomada de Ceuta, no norte da África, em 1415, costuma ser apontada como ponto de partida. Depois, os portugueses avançaram pouco a pouco. O medo tinha seu papel: o Cabo Bojador, na costa do Saara, era temido pelos marinheiros, que falavam de mares impossíveis de voltar. Em 1434, Gil Eanes passou por ali e voltou, e o mito começou a perder força.

O que permitia sair do alcance da terra

Navegar pelo Atlântico exigia equipamentos e conhecimentos que foram aperfeiçoados nessa época:

  • Caravela. Era leve, com velas triangulares que permitiam avançar contra o vento em ziguezague, aproveitando-o de lado.
  • Bússola. Vinda da China por meio de intermediários, indicava o norte mesmo com céu fechado.
  • Astrolábio e quadrante. Mediam a altura do Sol ou de estrelas sobre o horizonte, o que dava a latitude. Quem gosta de observar o céu tem mais assunto no texto sobre o sistema solar.
  • Cartas náuticas. Registravam costas e portos, e eram guardadas como segredos de Estado.

Já a longitude era difícil de calcular, um problema que só teria solução confiável no século XVIII, com relógios marítimos precisos. Um navegador sabia em que latitude estava, mas tinha uma ideia aproximada da distância percorrida para leste ou oeste. Foi no Atlântico Sul que os portugueses aprenderam também a volta do mar, uma manobra que afastava o navio da costa para aproveitar ventos favoráveis, e que mais tarde pode ter ajudado a levar frotas para perto do Brasil.

As viagens que redesenharam o mundo

Ano Navegador Feito
1488 Bartolomeu Dias Contornou o sul da África
1492 Cristóvão Colombo Chegou ao Caribe a serviço da Espanha
1498 Vasco da Gama Alcançou a Índia, em Calicute, por mar
1500 Pedro Álvares Cabral Chegou ao litoral do atual Brasil
1519 a 1522 Magalhães e Elcano Primeira volta ao mundo

Colombo acreditava ter alcançado a Ásia. Por causa desse engano, os habitantes da América foram chamados de índios. Tendo errado no tamanho do planeta, morreu em 1506 sem aceitar plenamente que aquele era um continente desconhecido dos europeus. O nome América vem de Américo Vespúcio, navegador italiano que escreveu sobre as novas terras. Os gregos antigos, aliás, já sabiam que a Terra era redonda, então Colombo não precisava provar isso, como às vezes se diz.

Um mundo repartido em um tratado

As descobertas espanholas colocaram as duas Coroas em conflito. Em 1494, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Tordesilhas, que dividiu as terras a serem achadas por uma linha imaginária a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. O que ficasse a leste seria português, e a oeste, espanhol. Povos que já viviam nessas terras não foram consultados, claro.

Essa linha passava mais ou menos entre o atual Pará e Santa Catarina, e o Brasil de hoje é bem maior do que isso. Os bandeirantes, as missões e os criadores de gado avançaram para o interior, e outros tratados, como o de Madri, em 1750, acabaram ajustando as fronteiras.

A esquadra de Cabral e a carta de Caminha

Em março de 1500, treze navios deixaram Lisboa rumo à Índia. Em 22 de abril, avistaram um monte, que batizaram de Pascoal, no sul da atual Bahia. O escrivão Pero Vaz de Caminha descreveu o encontro com os indígenas em uma longa carta ao rei dom Manuel, considerada a certidão de nascimento do Brasil. Ela fala de pessoas sem vergonha de sua nudez, de aves coloridas, de uma terra em que, “querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. Até hoje os historiadores debatem se a chegada foi casual ou intencional. Há quem cite o Tratado de Tordesilhas como indício de que Portugal já suspeitava de terras no oeste.

O nome Terra de Vera Cruz não durou muito. O pau-brasil, árvore de tinta vermelha, acabou dando nome ao país, e quem o explorava era chamado de brasileiro, mais ou menos como pedreiro ou sapateiro.

O lado escuro da expansão

A chegada dos europeus foi uma catástrofe para os povos da América. Doenças como a varíola, contra as quais os indígenas não tinham defesas, somaram-se à violência, ao trabalho forçado e à perda de territórios. Impérios como o asteca e o inca caíram em poucos anos diante dos espanhóis, e muitas populações desapareceram.

Na África, os portugueses ampliaram o comércio de pessoas escravizadas ainda no século XV. Com o tempo, o tráfico atlântico cresceu e transportou milhões de africanos para as Américas, marcando a formação do Brasil. A travessia era perigosa para todos: nas viagens longas, o escorbuto, provocado pela falta de vitamina C, matava muitos tripulantes, e na expedição de Vasco da Gama perderam-se muitos homens. Foi com o tempo que os marinheiros perceberam que frutas cítricas evitavam a doença, embora sem saber a razão.

A feira, o quintal e a troca entre continentes

Os efeitos são tão comuns que ninguém repara. O intercâmbio entre os continentes, conhecido como troca colombiana, mudou a alimentação do planeta. Veja o que aconteceu com alguns produtos conhecidos dos brasileiros:

  • Da América para o mundo: milho, batata, tomate, mandioca, amendoim, abacaxi e cacau. É difícil imaginar a Itália sem tomate, e ele só chegou lá depois das navegações.
  • Da Ásia e da África para o Brasil: manga, jaca, banana de vários tipos, coco, cana-de-açúcar, arroz e café.
  • Da Europa para a América: cavalo, boi, trigo, uva e porco.

A mesa de um almoço de domingo no Brasil, com arroz, frango e farofa de mandioca, mistura três continentes por causa dessas viagens. Até as palavras circularam: o português ganhou termos do tupi, de línguas africanas e do árabe, e o Brasil herdou uma língua levada por caravelas.

O século XVI foi também o início do que hoje chamamos de globalização, com produtos e pessoas circulando entre oceanos. Quem se interessa pelo que veio depois desses barcos a vela pode conhecer a evolução dos meios de transporte, que encurtou distâncias que os tripulantes de Magalhães levaram três anos para percorrer.

Botão Voltar ao topo