Renascimento: o que foi, principais artistas e curiosidades

Na Avenida Paulista, em São Paulo, o MASP guarda uma pintura de Rafael, A Ressurreição de Cristo, feita por volta de 1500, quando o artista ainda era bem jovem. Quem para diante dela está olhando para um pedaço do Renascimento, o movimento que transformou a arte, a ciência e a forma de pensar na Europa entre os séculos XIV e XVI. Foi a época de Leonardo da Vinci, de Michelangelo e de gente que ousou duvidar do que todos davam por certo, e seus efeitos estão nos quadros, nas igrejas e até na Matemática que se aprende na escola.
A palavra foi inventada por um pintor
Quem viveu o Renascimento tinha noção de estar em um tempo novo. O pintor e escritor italiano Giorgio Vasari, em 1550, usou a palavra rinascita, renascimento, ao contar a vida dos grandes artistas. A ideia era que a arte da Grécia e de Roma antigas estava voltando depois de séculos de declínio.
Essa visão era exagerada. A Idade Média produziu universidades, catedrais e obras importantes, e a imagem de mil anos de escuridão é hoje rejeitada pelos historiadores. O Renascimento não caiu do céu: foi preparado por transformações que vinham de antes.
Por que Florença, e não Paris ou Londres
O movimento floresceu primeiro nas cidades do norte e do centro da Itália, e por alguns motivos claros:
- Dinheiro do comércio. Cidades como Florença, Veneza e Gênova enriqueceram com tecidos, bancos e rotas para o Oriente.
- Ruínas à vista. Os italianos viviam entre templos e estátuas romanas, um convite permanente para estudar o passado.
- Mecenas. Famílias ricas pagavam artistas para mostrar poder e prestígio. Os Médici, banqueiros de Florença, são o caso mais conhecido, e o Papado de Roma também encomendou obras gigantescas.
- Textos antigos. Sábios bizantinos que vieram para a Itália, sobretudo por volta da tomada de Constantinopla pelos otomanos, em 1453, trouxeram conhecimento do grego e manuscritos.
A Peste Negra, que devastou a Europa em meados do século XIV, também pode ter tido seu papel. A tragédia abalou certezas e, em muitos lugares, alterou salários e a distribuição de riqueza, mas historiadores discutem até que ponto ela ajudou a abrir caminho para as mudanças.
O ser humano no centro do quadro
A corrente intelectual da época ficou conhecida como humanismo. Francesco Petrarca, no século XIV, procurava manuscritos latinos em bibliotecas de mosteiros. Depois dele, estudiosos passaram a valorizar a retórica, a história e a filosofia antiga. Vale dizer que a maioria dos humanistas continuava cristã: eles acreditavam que estudar os antigos e admirar a capacidade humana não contrariava a fé.
Essa atitude mudou a pintura. Se antes muitas figuras religiosas apareciam chapadas e douradas, agora surgiam corpos reais, com músculos, rugas e sombras. Na arte, era preciso observar a natureza. A partir de uma ideia de Filippo Brunelleschi, os pintores aprenderam a perspectiva linear, a técnica que cria a sensação de profundidade em uma superfície plana, usando linhas que se encontram em um ponto de fuga.
Brunelleschi é também o responsável por um feito de engenharia: a cúpula da catedral de Florença, concluída no século XV. Ninguém sabia como erguer uma cúpula tão grande, e ele desenvolveu uma solução sem as tradicionais armações de madeira como apoio. Até hoje ela é uma das maiores de alvenaria do mundo.
Quatro nomes que ajudam a entender a época
| Artista | Viveu entre | Obras conhecidas |
|---|---|---|
| Sandro Botticelli | 1445 e 1510 | O Nascimento de Vênus |
| Leonardo da Vinci | 1452 e 1519 | Mona Lisa, A Última Ceia |
| Michelangelo Buonarroti | 1475 e 1564 | Davi, Pietà, teto da Capela Sistina |
| Rafael Sanzio | 1483 e 1520 | A Escola de Atenas, Madonas |
Leonardo era um curioso sem limites. Dissecou cadáveres para entender o corpo humano, desenhou máquinas voadoras e deixou milhares de páginas de anotações, escritas de trás para frente, de modo que se leem com um espelho. Canhoto, talvez fizesse isso para não borrar a tinta. Muitos de seus projetos nunca saíram do papel, e a própria Mona Lisa ficou com ele até o fim da vida, na França.
Michelangelo se via principalmente como escultor. Quando o papa Júlio II lhe encomendou o teto da Capela Sistina, ele aceitou a contragosto e trabalhou de 1508 a 1512, sobre andaimes que ele mesmo concebeu. Ao contrário da imagem popular, ele não pintou deitado. Ficava em pé, com o pescoço dobrado para trás, e escreveu um poema reclamando do incômodo.
Rafael morreu com apenas 37 anos e mesmo assim deixou obra imensa. Em A Escola de Atenas, ele colocou os filósofos gregos em um edifício imponente, e consta que deu a Platão o rosto de Leonardo e a um dos filósofos a figura de Michelangelo.
Olhar para o céu e medir tudo de novo
A curiosidade não ficou nos ateliês. Em 1543, o polonês Nicolau Copérnico publicou sua teoria de que a Terra gira em torno do Sol, contrariando a visão tradicional de que ela estava no centro do universo. Quem gosta do assunto encontra mais detalhes no texto sobre o sistema solar. No mesmo ano, o médico Andreas Vesalius lançou um atlas de anatomia que corrigia erros antigos, baseado em dissecações.
A invenção da prensa de tipos móveis, por Johannes Gutenberg, em meados do século XV, foi outro motor. Antes dela, livros eram copiados à mão. Com a impressão, ideias passaram a circular muito mais depressa e por um custo menor. Essa mudança é continuação de uma longa trajetória, contada na história da escrita.
Quando as ideias atravessaram os Alpes
Do final do século XV em diante, o movimento se espalhou pela Europa. Na Holanda atual, Erasmo de Roterdã criticou os abusos do clero com humor em O Elogio da Loucura. Na Inglaterra, Thomas More imaginou uma ilha ideal em Utopia, palavra que usamos até hoje, e William Shakespeare levou as paixões humanas ao palco. Na Espanha, Miguel de Cervantes escreveu Dom Quixote. Maquiavel, em Florença, escreveu O Príncipe, um estudo frio sobre como o poder funciona na prática.
Para falantes de português, o grande nome é Luís de Camões, cujos Os Lusíadas, de 1572, narram a viagem de Vasco da Gama à Índia e misturam deuses da mitologia grega com a história portuguesa. É por isso que a nossa língua é chamada, em um verso de Olavo Bilac, de “última flor do Lácio”: herdeira do latim que os humanistas tanto estudavam.
O que sobrou daquele tempo no nosso dia a dia
O Renascimento deixou sinais onde pouca gente procura. Alguns exemplos estão bem próximos:
- A perspectiva aparece no desenho técnico, na arquitetura e até nos programas de computador que simulam ambientes em 3D.
- Os retratos individuais, que os ricos do período encomendavam, são antepassados das fotos de família.
- A palavra mecenas ainda nomeia quem financia cultura, e no Brasil há leis de incentivo que seguem essa mesma lógica.
- As fachadas com colunas e arcos de teatros e prédios públicos de muitas capitais brasileiras retomam formas que os renascentistas recuperaram da Antiguidade.
Também é preciso lembrar o outro lado. Mulheres tiveram pouco espaço, com exceções como a pintora Sofonisba Anguissola, e o conhecimento ficava concentrado em quem tinha dinheiro. Nos mesmos anos em que Michelangelo pintava a Capela Sistina, navios europeus já chegavam às Américas, dando início à colonização que atingiu indígenas e africanos.
A pintura de Rafael no MASP pode ser vista por qualquer visitante, e esse é um pequeno privilégio para quem vive no Brasil. Olhar de perto como o jovem pintor organizou corpos e paisagem é um bom jeito de entender o que aquele tempo tinha de novo.