Energias renováveis: tipos e como funciona cada uma no Brasil

Ao acender a luz da cozinha, há boas chances de a eletricidade ter vindo da água de um rio, do vento do litoral nordestino ou do sol. Na maior parte dos países, a tomada é alimentada principalmente por carvão, gás ou petróleo, mas o Brasil é diferente: nos balanços energéticos nacionais mais recentes, mais de 85% da eletricidade do país vem de fontes renováveis. O que são, afinal, as energias renováveis, como cada uma funciona e por que nenhuma delas resolve tudo sozinha?

Por que uma fonte é chamada de renovável

Renovável é a fonte que se recompõe em um prazo curto na escala humana, como o vento, a luz do sol e a água que circula na natureza. Carvão mineral, petróleo e gás também vieram de seres vivos, mas levaram milhões de anos para se formar, e o que se queima hoje não volta.

Renovável e limpa não são exatamente a mesma coisa. Toda fonte tem algum impacto: hidrelétricas alagam terras, parques eólicos afetam aves e comunidades, painéis exigem mineração. A energia nuclear, por outro lado, emite pouco gás carbônico ao gerar eletricidade, mas não é renovável, porque depende de urânio. É o caso das usinas de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Água: a energia que o Brasil conhece melhor

A hidrelétrica aproveita a queda da água. Um rio é represado, a água desce por dutos e faz girar turbinas, que estão ligadas a geradores. Esses geradores transformam o movimento em eletricidade, que segue pelas linhas de transmissão. A chuva que enche os reservatórios é parte do ciclo da água na natureza, por isso a fonte é considerada renovável.

O exemplo mais famoso é Itaipu, no rio Paraná, usina que Brasil e Paraguai compartilham, com 14 mil megawatts de capacidade. Belo Monte, no Pará, e Tucuruí também estão entre as maiores do país.

A fragilidade está na dependência das chuvas. Em períodos de seca, os reservatórios baixam e o sistema precisa acionar usinas térmicas, mais caras. É por isso que a conta de luz pode mudar de bandeira, com cobrança adicional em certos meses. Quem é de baixa renda pode verificar se tem direito à Tarifa Social de Energia.

Vento: o que os cata-ventos gigantes fazem no Nordeste

Quem viaja pelo interior da Bahia, do Rio Grande do Norte ou do Ceará vê torres enormes com três pás. Cada aerogerador funciona como o oposto de um ventilador: em vez de usar eletricidade para mover o ar, usa o ar em movimento para gerar eletricidade.

  1. O vento empurra as pás, que têm formato parecido com a asa de um avião.
  2. O rotor gira um eixo ligado a um gerador, dentro da caixa no alto da torre.
  3. A eletricidade desce pelos cabos e vai para uma subestação.
  4. De lá, entra na rede que abastece o país.

O Nordeste brasileiro tem ventos fortes e relativamente constantes, o que tornou a região líder nacional nessa fonte. Curiosamente, em muitos lugares venta mais justamente na época de menos chuva, e essa complementação ajuda as hidrelétricas. Outro detalhe: muitos parques ficam em terras de agricultores, que continuam plantando ou criando animais em volta das torres.

Sol: duas tecnologias com objetivos diferentes

A energia solar costuma ser confundida porque há dois usos bem distintos nos telhados brasileiros:

Tecnologia Como funciona O que produz
Painel fotovoltaico A luz atinge células de silício e movimenta elétrons, criando corrente elétrica Eletricidade
Coletor solar térmico O calor do sol aquece a água em tubos Água quente para banho

O painel gera corrente contínua, e um aparelho chamado inversor a transforma na corrente alternada usada pelos eletrodomésticos. O efeito físico por trás disso foi observado em 1839 pelo francês Edmond Becquerel, bem antes de qualquer casa ter luz elétrica.

A geração solar não para de crescer no Brasil, seja em grandes usinas, como as do semiárido, seja em residências e comércios. Desde 2022, a Lei 14.300 regula a chamada geração distribuída, que permite a quem produz sua própria energia compensar parte do consumo na conta. O sistema tem limitações: à noite não gera, e nos dias nublados gera menos. Antes de instalar, é aconselhável pedir mais de um orçamento e confirmar as regras da distribuidora local, pois a economia varia de caso a caso.

Biomassa: o bagaço de cana que vira luz

Biomassa é todo material orgânico usado para gerar energia, como bagaço de cana, resíduos de madeira, casca de arroz e até esterco. Nas usinas de açúcar e etanol, o bagaço é queimado em caldeiras, o vapor move turbinas e a eletricidade gerada abastece a própria usina, com o excedente vendido à rede. A safra da cana no Centro-Sul coincide com a época mais seca, outro exemplo de fonte que ajuda quando os rios estão baixos.

O Brasil tem uma experiência rara com biocombustíveis. O etanol ganhou força com o Proálcool, programa criado em 1975 durante a crise do petróleo, e a gasolina vendida nos postos já vem misturada com etanol. O biodiesel, feito principalmente de óleo de soja e sebo animal, é misturado ao diesel. Os carros flex, que chegaram ao mercado brasileiro em 2003, tornaram essa escolha comum na bomba de combustível.

Existe ainda o biogás, produzido quando bactérias decompõem matéria orgânica em lugares sem oxigênio. Aterros sanitários e criações de porcos podem capturar esse gás, que seria perdido e poluiria o ar, e usá-lo para gerar energia.

Fontes que ainda têm pouco espaço no país

Energia geotérmica

Aproveita o calor do interior da Terra, sobretudo em áreas de atividade vulcânica. A Islândia, por exemplo, usa esse recurso para produzir eletricidade e aquecer casas. No Brasil, o potencial para gerar eletricidade é pequeno, porque o país fica longe das bordas das placas tectônicas, assunto do texto sobre vulcões e terremotos.

Energia das marés e das ondas

O movimento do mar também pode mover turbinas ou sistemas mecânicos. A tecnologia ainda é pouco difundida no mundo, e a maior parte dos projetos brasileiros ficou no campo experimental.

Hidrogênio verde

Não é uma fonte, e sim uma forma de armazenar e transportar energia. Com eletricidade renovável, separa-se o hidrogênio da água. Esse gás pode depois abastecer indústrias ou veículos. O Brasil é citado como candidato a produtor por causa da sua matriz elétrica, mas o setor ainda está em fase inicial.

Os problemas que a transição ainda precisa resolver

O grande desafio é a intermitência: sol e vento variam ao longo do dia. A eletricidade precisa ser produzida no instante em que é consumida, e por isso a rede depende de planejamento constante. Baterias e reservatórios de hidrelétricas ajudam a guardar energia para os momentos de maior demanda.

Outro ponto é a escala regional. Grandes parques produzem no Nordeste, mas boa parte do consumo está no Sudeste, e são necessárias linhas de transmissão longas. Há ainda discussões sobre impactos locais, como ruído e direitos de comunidades próximas a parques eólicos, e sobre o descarte de painéis ao fim de sua vida útil.

Pequenos hábitos em casa fazem parte da conta

A energia mais barata é a que não é gasta. Mesmo com fontes renováveis, consumir menos reduz a necessidade de acionar térmicas nos períodos críticos e alivia o orçamento familiar. Trocar lâmpadas antigas por LED, secar roupa no varal sempre que possível e não abrir a geladeira à toa são atitudes simples. O chuveiro elétrico, que está presente em muitas casas brasileiras, costuma ser um dos maiores consumidores, então banhos mais curtos pesam na conta.

O curioso é que a soma de bilhões de pequenas decisões, ao longo de um país inteiro, conversa com grandes turbinas, parques eólicos e usinas: em algum ponto da rede, a água, o vento ou o sol estão chegando até a sua tomada.

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