História do futebol no Brasil: de Charles Miller às Copas

Em 1894, um rapaz de 20 anos desembarcou em Santos com duas bolas de couro, um par de chuteiras e um livro de regras na bagagem. Filho de um escocês com uma brasileira, Charles Miller voltava de anos de estudo na Inglaterra e queria apenas continuar jogando. A história do futebol no Brasil, que hoje enche estádios, muda horários de trabalho e faz vizinhos pararem de se falar por 90 minutos, começou de modo bem mais modesto, em um campo de várzea paulistano e em clubes fechados para a elite. Levaria décadas até o esporte virar paixão de todo o povo.

Um terreno, duas empresas e o jogo que ficou para a história

Em abril de 1895, na Várzea do Carmo, em São Paulo, perto de onde hoje está o Largo do Gasômetro, Miller organizou uma partida entre funcionários da Companhia de Gás e da São Paulo Railway. O time ferroviário, o dele, ganhou por 4 a 2. É costume citar esse jogo como o primeiro do país com regras oficiais.

Há registros de bolas chutadas antes disso, com marinheiros estrangeiros em portos e em escolas jesuítas, como a de Itu. Por isso, chamar Miller de pai do futebol brasileiro é simplificar um pouco: ele foi quem ajudou a organizá-lo. Outro detalhe: as ferrovias inglesas tiveram papel importante, porque foi em seu entorno que grupos de funcionários britânicos passaram a jogar, e essa história conversa com a evolução dos meios de transporte.

Curiosidade sobre a linguagem: nos primeiros tempos, os termos eram quase todos ingleses, como goalkeeper, off-side, penalty e corner. Aos poucos vieram os aportuguesamentos, entre os quais gol, pênalti e escanteio.

Esporte de clube fino, depois de fábrica

O primeiro campeonato paulista foi disputado em 1902. O carioca veio em 1906. O esporte era praticado por jovens de famílias ricas, muitas vezes estrangeiras ou de origem europeia. Em certos clubes, a torcida ia de roupa elegante, e as moças levavam leques.

Isso mudou com as equipes de fábricas. O Bangu Atlético Clube nasceu em 1904, no Rio, em torno de uma fábrica de tecidos, e chegou a escalar operários, inclusive negros. Na mesma época, surgiam os times de bairro e de várzea. Os dados históricos são disputados, mas várias agremiações se dizem pioneiras: Sport Club Rio Grande, de 1900, é reconhecido como o clube mais antigo em atividade, e a Ponte Preta, também de 1900, reivindica condição parecida em São Paulo.

Em 1914, a Seleção Brasileira entrou em campo em sua primeira partida reconhecida, contra o clube inglês Exeter City, no Rio de Janeiro. Uma década antes, poucos imaginavam que aquele time formado às pressas viraria uma marca reconhecida em todos os continentes.

A disputa contra o racismo dentro de campo

No início do século XX, jogadores negros encontravam portas fechadas em muitos clubes. Uma história conhecida é a de Carlos Alberto, do Fluminense, acusado em 1914 de passar pó de arroz no rosto para clarear a pele. Daí veio o apelido da torcida tricolor, que a própria acabou adotando. Pesquisadores discutem os detalhes desse episódio.

Um marco ocorreu no Vasco da Gama. Em 1923, o clube venceu o campeonato carioca com um time de negros e operários. No ano seguinte, grandes clubes criaram uma nova liga e exigiram excluir vários jogadores. O presidente José Augusto Prestes respondeu com um documento conhecido como Resposta Histórica, recusando-se a cortar seus atletas. Nas décadas seguintes, Leônidas da Silva, o Diamante Negro, e Domingos da Guia se tornaram ídolos nacionais, e o Brasil passou a se ver nesse futebol mestiço, inventivo e cheio de drible. Os obstáculos fora de campo continuaram, e o racismo nos estádios ainda é tema de punições e campanhas.

Quando jogar virou profissão

Até os anos 1930, o amadorismo era a regra oficial, embora alguns clubes dessem presentes e empregos de fachada aos craques. Muitos brasileiros iam jogar na Itália e na Argentina. Em 1933, o Brasil adotou o profissionalismo, com contrato. O rádio, por sua vez, levou as narrações para todos os estados, e quem nunca tinha ido ao estádio passou a torcer por clubes distantes. Até hoje, milhares de torcedores do Norte e do Nordeste escolhem times do Rio e de São Paulo por herança desse tempo.

O futebol passou também a ser usado como símbolo nacional. Getúlio Vargas reconheceu seu apelo popular, e o Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940, foi um exemplo da presença do Estado nesse universo.

Da dor de 1950 às cinco estrelas

A Copa de 1950, sediada pelo Brasil, tinha tudo para ser uma festa. O Maracanã foi construído para o torneio. Mas, em 16 de julho, diante de uma multidão enorme, o Uruguai venceu por 2 a 1. O episódio ficou conhecido como Maracanazo. O goleiro Barbosa carregou a culpa pelo resto da vida, e o trauma ajudou até a mudar a camisa, com a criação do uniforme amarelo, usado a partir de 1954.

A resposta veio oito anos depois. Veja os títulos mundiais do país:

Ano Sede Adversário na final Destaques
1958 Suécia Suécia Pelé, aos 17 anos, e Garrincha
1962 Chile Tchecoslováquia Garrincha, com Pelé lesionado
1970 México Itália Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivellino
1994 Estados Unidos Itália, nos pênaltis Romário e Bebeto
2002 Japão e Coreia do Sul Alemanha Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho

O Brasil continua sendo o único pentacampeão da Copa do Mundo masculina e o único a ter participado de todas as edições. Pelé, morto em 2022, é o único jogador com três títulos mundiais. Ele marcou mais de mil gols em sua carreira, em uma contagem que inclui amistosos, e seu milésimo, em 1969, de pênalti, no Maracanã, parou o noticiário. A Copa de 2014, de novo no Brasil, deixou outra ferida: a derrota de 7 a 1 para a Alemanha na semifinal.

O futebol que foi proibido para as mulheres

Poucos sabem disso, mas por quase 40 anos as brasileiras foram impedidas por norma oficial de jogar. Em 1941, um decreto-lei de Getúlio Vargas vetou às mulheres esportes considerados incompatíveis com a natureza feminina, e o futebol era atingido por essa regra. Em 1965, durante o regime militar, a proibição ficou explícita. Mesmo assim, muitas continuaram a jogar, em circos, festas e campos improvisados.

A restrição caiu em 1979, e a regulamentação só veio em 1983. Por isso, a modalidade começou com enorme atraso em relação a outros países. Ainda assim, surgiram gerações notáveis, com Sissi, Formiga, que disputou sete Copas do Mundo, e Marta, escolhida seis vezes a melhor do mundo pela Fifa. Em 2024, a Fifa escolheu o Brasil como sede da Copa do Mundo Feminina de 2027, a primeira na América do Sul.

Palavras e rituais que saíram do gramado

Poucas coisas ligam tanto os brasileiros ao esporte quanto o vocabulário. Quem nunca disse “pisou na bola” para falar de um erro, “bateu na trave” quando quase conseguiu, “tirou o time de campo” ao desistir de algo ou “deu um olé” em alguém? Em dia de jogo da Seleção, é comum ver ruas pintadas e horários adaptados. Rivalidades como Fla-Flu, Grenal, Atletiba e o Clássico das Multidões, entre Santa Cruz e Sport, passam de pai para filho.

As mudanças recentes também chegaram. As transferências de jovens para a Europa, as arenas modernas, as pautas sobre saúde dos atletas e as narrações pelo celular criaram uma experiência diferente daquela do radinho de pilha. A base, porém, segue a mesma de 1895: uma bola, um terreno e gente com vontade de jogar. Basta passar por qualquer campinho de terra em um fim de semana para ver isso.

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