Independência do Brasil: como foi o processo de 1808 a 1825

Quem visita o Museu do Ipiranga, em São Paulo, encontra um quadro enorme: dom Pedro de espada erguida, cavalos imponentes, soldados de uniforme impecável. A tela foi pintada por Pedro Américo em 1888, mais de seis décadas depois da cena que retrata, e é uma obra de imaginação. A Independência do Brasil teve aquele momento às margens de um riacho paulista, mas foi um processo bem mais longo, com disputas políticas, guerra em várias províncias e até um pagamento em dinheiro a Portugal.
Quando a corte mudou de endereço, tudo começou a mudar
A história começa em 1807, quando as tropas de Napoleão avançaram sobre Portugal. A família real portuguesa e milhares de integrantes da corte embarcaram para o Brasil, com apoio da marinha britânica, e chegaram em 1808. Foi um caso raro: a sede de um império europeu passou a funcionar em sua colônia.
A presença de dom João mudou a vida no Rio de Janeiro. Logo em 1808 os portos foram abertos ao comércio com nações amigas, o que encerrou na prática a exclusividade comercial portuguesa. Surgiram a Impressão Régia, o Banco do Brasil e novas instituições de ensino. Em 1815, o Brasil foi elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves, e deixou de ser formalmente uma colônia.
Nessa altura, voltar atrás já parecia difícil. Comerciantes e proprietários brasileiros tinham se acostumado à nova condição, e muitos não aceitariam perder o que haviam conquistado.
A pressão de Lisboa e o dia em que dom Pedro ficou
Em 1820, a Revolução Liberal do Porto sacudiu Portugal. Os revoltosos exigiam uma Constituição e a volta do rei. Dom João VI retornou a Lisboa em 1821 e deixou aqui o filho, Pedro, como príncipe regente.
As Cortes reunidas em Lisboa passaram a tomar medidas que reduziam a autonomia conquistada e exigiram também o retorno do príncipe. A reação veio em 9 de janeiro de 1822, data conhecida como Dia do Fico, quando dom Pedro anunciou que permaneceria no Brasil depois de receber pedidos de grupos locais.
A partir daí, os passos se aceleraram. José Bonifácio de Andrada e Silva, cientista e político paulista, tornou-se o principal conselheiro do príncipe. Ficou decidido que ordens vindas de Portugal só valeriam no Brasil com autorização do regente, e foi convocada uma assembleia constituinte brasileira.
O que aconteceu no Ipiranga em 7 de setembro
Dom Pedro estava em viagem a São Paulo quando novas ordens chegaram de Lisboa. No Rio, a princesa Leopoldina, sua esposa, reuniu-se com o Conselho de Estado e remeteu as notícias, junto com cartas dela e de José Bonifácio. Um mensageiro levou tudo a cavalo. Em um tempo sem telégrafo, uma decisão de Estado dependia da resistência de homens e animais. Quem gosta do tema pode ler sobre a evolução dos meios de transporte e entender como eram demoradas essas viagens.
O encontro aconteceu em 7 de setembro de 1822, perto do riacho Ipiranga. Dom Pedro leu os papéis e declarou o rompimento. Relatos da época indicam que a comitiva viajava em animais de carga, mais adequados à subida da Serra do Mar, e não nos cavalos de porte do quadro famoso. A frase “Independência ou morte” entrou para a memória nacional, embora as palavras exatas variem entre os testemunhos.
Curiosamente, a data não ganhou de imediato o peso que tem hoje. Dom Pedro foi aclamado imperador em 12 de outubro de 1822 e coroado em 1º de dezembro do mesmo ano. O 7 de setembro só se consolidou aos poucos como a grande data nacional.
A guerra que os livros escolares costumavam deixar de lado
A ideia de uma independência sem sangue não resiste aos fatos. Várias províncias tinham tropas e autoridades fiéis a Portugal, e o novo governo precisou enfrentá-las.
| Região | O que aconteceu | Data de referência |
|---|---|---|
| Bahia | Tropas portuguesas deixaram Salvador depois de meses de combates | 2 de julho de 1823 |
| Piauí | Batalha do Jenipapo, perto de Campo Maior | 13 de março de 1823 |
| Maranhão | Adesão ao Império depois de pressão militar | 28 de julho de 1823 |
| Pará | Adesão ao Império | 15 de agosto de 1823 |
A Bahia foi o palco principal. É por isso que o 2 de Julho é tão festejado em Salvador, com desfile popular pelas ruas do centro histórico. Dessa luta saíram nomes que todo baiano conhece, como Maria Quitéria, que se disfarçou de homem para entrar no Exército, e a abadessa Joana Angélica, morta durante a invasão de um convento por soldados portugueses em 1822.
No Piauí, a Batalha do Jenipapo reuniu sertanejos mal armados contra tropas portuguesas experientes. Eles perderam o confronto no campo, mas o desgaste do inimigo ajudou a causa brasileira no Norte do país. Muita gente que nasceu fora do Piauí nunca ouviu falar desse episódio.
O preço da independência, em libras esterlinas
Declarar independência era uma coisa, ser reconhecido era outra. Os Estados Unidos reconheceram o Brasil em 1824. Portugal só fez isso em 29 de agosto de 1825, pelo Tratado de Paz e Aliança, negociado com mediação britânica.
O acordo incluiu uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas. Sem esse dinheiro em caixa, o Brasil recorreu a crédito inglês. Assim, o país nasceu com uma dívida externa significativa. A Inglaterra, por sua vez, tinha forte interesse comercial nesse desfecho, já que vendia produtos manufaturados ao mercado brasileiro.
O que mudou e o que continuou igual
O Brasil se tornou um país independente, mas sob uma monarquia, ao contrário dos vizinhos que surgiam da América espanhola como repúblicas. Essa escolha ajudou a manter o território unido sob um único governo, embora tenha havido revoltas regionais nas décadas seguintes.
A estrutura social quase não foi alterada. A escravidão continuou por mais 66 anos, e a grande propriedade rural seguiu como base da economia. A maioria da população, incluindo indígenas e pessoas escravizadas, não teve participação nas decisões. Em 1823, dom Pedro dissolveu a Assembleia Constituinte, e no ano seguinte outorgou a Constituição de 1824, que criou o Poder Moderador, exclusivo do imperador.
Houve resistência a esse modelo. Em 1824, Pernambuco e províncias vizinhas formaram a Confederação do Equador, movimento republicano derrotado pelo governo imperial. Frei Caneca, um de seus líderes, foi executado no ano seguinte em Recife.
Detalhes que costumam surpreender
- O imperador também compunha. Dom Pedro I é o autor da música do Hino da Independência, com letra de Evaristo da Veiga. A melodia ainda é cantada nas escolas.
- Ele foi rei de Portugal. Com a morte de dom João VI, em 1826, dom Pedro herdou o trono português como Pedro IV e logo abriu mão dele em favor da filha, Maria da Glória.
- O Brasil perdeu o imperador em 1831. Desgastado, dom Pedro abdicou em favor do filho de cinco anos, o futuro dom Pedro II, e voltou à Europa.
- O coração ficou em Portugal. Em seu testamento, dom Pedro deixou o coração à cidade do Porto, onde está guardado até hoje. Parte de seus restos mortais está na cripta do Monumento à Independência, em São Paulo, bem perto do lugar do grito.
Por que o feriado de 7 de setembro ainda diz tanto
Todo ano, o desfile cívico, as bandas escolares e os discursos oficiais lembram uma data só, e isso é compreensível, porque uma nação gosta de ter um ponto de partida claro. Olhar para o processo inteiro, porém, ajuda a entender o Brasil de hoje. A enorme extensão do território, a força histórica dos grandes proprietários rurais, a influência de interesses estrangeiros na economia e a demora em estender direitos a toda a população têm raízes nesses anos entre 1808 e 1825.
Da próxima vez que alguém disser que o Brasil ficou independente por causa de um grito, você já sabe o resto: houve uma corte em fuga, um príncipe pressionado, uma princesa decisiva, batalhas no sertão e uma conta paga em libras.