Revolução Industrial: causas, fases e efeitos no Brasil

Bater o ponto às oito, almoçar em horário marcado, sair quando o relógio mandar. Essa rotina, que parece natural para milhões de brasileiros, é relativamente nova na história humana. Até o século XVIII, a maior parte das pessoas trabalhava conforme a luz do dia, as estações e a colheita. Foi a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra por volta de 1760, que colocou máquinas, fábricas e horários rígidos no centro da vida, e seus efeitos chegam até o holerite de hoje.

Por que justamente a Inglaterra

Nenhuma causa isolada explica o pioneirismo inglês. Foi uma combinação de fatores que apareceram juntos naquele país:

  • Carvão e ferro em abundância no próprio território, além de rios e portos para o transporte.
  • Dinheiro acumulado com o comércio internacional e com a exploração colonial, inclusive o tráfico de pessoas escravizadas.
  • Mão de obra disponível, porque os cercamentos tiraram muitos camponeses das terras de uso comum e os empurraram para as cidades.
  • Estabilidade política e leis favoráveis aos negócios, com patentes que protegiam quem inventava.

Havia ainda um mercado sedento por tecidos de algodão, leves e baratos. E foi justamente pela roupa que a transformação começou.

Do tear de casa à fábrica barulhenta

Antes das fábricas, muitas famílias fiavam e teciam em casa, sob encomenda de comerciantes. Em poucas décadas esse arranjo foi superado por invenções que multiplicaram a produção. A spinning jenny, de James Hargreaves, criada nos anos 1760, permitia a uma só pessoa operar vários fusos ao mesmo tempo. Depois veio a water frame, de Richard Arkwright, movida pela força da água, e em 1785 o tear mecânico de Edmund Cartwright.

O passo decisivo foi o aperfeiçoamento da máquina a vapor por James Watt, patenteado em 1769. Newcomen já tinha criado uma máquina para retirar água de minas, mas gastava carvão demais. Com a versão de Watt, mais eficiente, a fábrica não precisava mais ficar à beira de um rio. Podia ser erguida na cidade, perto dos trabalhadores e dos compradores.

Manchester virou o símbolo desse período. Era uma cidade pequena no começo do século XVIII e se tornou um grande centro têxtil, com chaminés por toda parte.

A vida dentro da fábrica no século XIX

O crescimento da produção teve um custo humano altíssimo. As jornadas podiam passar de 14 horas, sem férias, sem aposentadoria e sem qualquer proteção em caso de acidente. Crianças trabalhavam em tecelagens e minas, muitas vezes porque eram pequenas o bastante para entrar debaixo das máquinas ou em túneis estreitos. Os salários delas e das mulheres eram menores.

Os bairros operários cresciam sem esgoto nem água limpa, e doenças como a cólera e a tuberculose se espalhavam com facilidade. Friedrich Engels descreveu essas condições em seu livro sobre a classe trabalhadora inglesa, publicado em 1845, uma das fontes mais citadas sobre o tema.

Os trabalhadores reagiram. Entre 1811 e 1816, grupos chamados de ludistas invadiram oficinas e quebraram máquinas no norte da Inglaterra, assinando cartas com o nome de um líder provavelmente imaginário, Ned Ludd. Hoje a palavra ludita é usada para quem rejeita tecnologia, mas a revolta tinha alvos concretos: salários e ofícios ameaçados. Depois vieram os sindicatos, proibidos no início e aceitos aos poucos, e as primeiras leis de proteção. A Lei das Fábricas de 1833, na Grã-Bretanha, proibiu o trabalho de crianças menores de nove anos nas fábricas têxteis.

Três fases, três mundos diferentes

Historiadores costumam separar a industrialização em etapas. As datas são aproximadas, porque as mudanças não têm dia certo para começar.

Fase Período aproximado Energia e tecnologia principais
Primeira 1760 a 1850 Carvão, vapor, ferro, tecelagem mecânica
Segunda 1850 a 1945 Aço, eletricidade, petróleo, linha de montagem
Terceira A partir de meados do século XX Eletrônica, computadores, automação

A segunda fase trouxe o processo Bessemer, que barateou o aço a partir da década de 1850, a lâmpada elétrica comercial de Thomas Edison, de 1879, e os motores movidos a derivados de petróleo. Em 1913, Henry Ford instalou uma linha de montagem móvel para produzir o Modelo T, e a expressão produção em massa entrou no vocabulário. Charles Chaplin satirizou essa rotina repetitiva no filme Tempos Modernos, de 1936.

Como o trem mudou até a hora do relógio

O transporte foi das áreas mais transformadas. A linha entre Stockton e Darlington, inaugurada em 1825, usou locomotivas a vapor, e em 1830 foi aberta a ligação entre Liverpool e Manchester. A locomotiva Rocket, de George e Robert Stephenson, ficou famosa ao vencer uma competição em 1829. O assunto rende bastante e aparece no nosso texto sobre a evolução dos meios de transporte.

Um efeito curioso apareceu nas estações. Antes, cada cidade inglesa regulava o relógio pelo Sol, e havia minutos de diferença entre uma e outra. Isso bagunçava os horários dos trens, então as ferrovias britânicas adotaram um horário único, baseado em Greenwich. Mais tarde o mundo inteiro passaria a seguir fusos horários padronizados, e é por isso que o relógio do seu celular marca a mesma hora que o do vizinho.

E no Brasil, quando as fábricas chegaram

O Brasil entrou atrasado nesse movimento. Durante o período colonial, a instalação de manufaturas chegou a ser proibida por um alvará de 1785, revogado em 1808 com a chegada da corte. No século XIX, o país vivia do café e do trabalho escravizado. Mesmo assim, houve figuras pioneiras, como Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, que investiu em estaleiros e ferrovias. A primeira estrada de ferro brasileira foi inaugurada em 1854, ligando a Baía de Guanabara à raiz da serra de Petrópolis.

O impulso maior veio com o dinheiro do café e com os imigrantes, sobretudo em São Paulo, no fim do século XIX e início do XX. A greve geral de 1917, que parou São Paulo, mostrou que os operários brasileiros enfrentavam problemas parecidos com os ingleses de cem anos antes: jornadas longas e trabalho infantil.

A partir dos anos 1930, o Estado passou a atuar diretamente. A Companhia Siderúrgica Nacional foi criada em 1941, com usina em Volta Redonda (RJ), e a Consolidação das Leis do Trabalho veio em 1943. Muitos direitos que hoje aparecem na carteira de trabalho, como férias e limite de jornada, nasceram da longa disputa que começou nas fábricas do século XIX. Mais tarde, o governo Juscelino Kubitschek atraiu montadoras de automóveis, e o ABC paulista virou um polo metalúrgico.

O legado que está no ar, nas cidades e no prato

A Revolução Industrial tornou objetos antes caros acessíveis a muita gente: roupa, panela, livro, remédio, geladeira. Ajudou a sustentar um enorme aumento da população mundial e o deslocamento em massa do campo para as cidades, processo que o Brasil viveu de forma muito rápida no século XX.

Também deixou problemas que continuam em debate. A queima de carvão e, depois, de petróleo lançou grandes quantidades de gás carbônico na atmosfera, e cientistas apontam essa mudança como principal causa do aquecimento global observado nas últimas décadas. Por isso, muitos estudos climáticos usam o período pré-industrial como referência de comparação.

A discussão sobre máquinas tomando empregos também voltou com força, agora com robôs e softwares. Trabalhadores do século XIX temiam a tecelagem mecânica, e quem hoje acompanha as notícias sobre inteligência artificial reconhece uma preocupação parecida, em uma versão nova de uma velha pergunta: quem fica com os ganhos quando a produção muda?

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