Como as marés funcionam e por que variam tanto

Em São Luís, no Maranhão, barcos que de manhã flutuavam ao lado do cais podem estar deitados na lama à tarde. A diferença entre a maré alta e a baixa por lá pode chegar perto de 8 metros, a altura de um prédio de dois ou três andares. Já quem passa as férias em uma praia de Santa Catarina mal percebe a água subir. O motivo dessa diferença, e de como as marés funcionam, envolve a Lua, o Sol e até o desenho do fundo do mar.
A Lua puxa mais o lado de cá do que o lado de lá
Quase todo mundo sabe que a Lua tem relação com as marés, mas a explicação comum, de que ela simplesmente “puxa a água”, deixa uma pergunta sem resposta. Se fosse só isso, haveria uma maré alta por dia, do lado voltado para a Lua. Só que, na maior parte do mundo, são duas.
O segredo está na diferença de atração. A gravidade fica mais fraca com a distância, e a Terra tem quase 13 mil quilômetros de diâmetro. O lado mais próximo da Lua é atraído com mais força que o centro do planeta, e o centro é atraído com mais força que o lado oposto. A relação entre os astros estica o oceano em duas direções opostas, formando dois volumes de água: um voltado para a Lua, outro no lado contrário. Quem está no lado de lá vê a Terra sendo “puxada para longe” da água, que fica para trás.
Por que a maré atrasa um pouco todo dia
A Terra gira por dentro desses dois volumes de água, como uma bola girando dentro de uma capa com dois calombos. Um ponto do litoral passa pelas duas regiões altas e pelas duas baixas a cada giro. Seria um ciclo de 24 horas, mas enquanto a Terra gira, a Lua também anda na sua órbita, e o planeta precisa de um pouco mais de tempo para alcançá-la. O dia lunar dura cerca de 24 horas e 50 minutos.
Na prática, onde há duas marés altas por dia, elas se repetem a cada 12 horas e 25 minutos, mais ou menos, e o horário avança perto de 50 minutos de um dia para o outro. Por isso o pescador que saiu às 5 da manhã hoje pode encontrar a mesma maré às 5h50 amanhã. Os locais têm esse padrão com variações, e existem costas com uma só maré alta diária, por causa da forma das bacias oceânicas.
O papel do Sol e da fase da Lua
O Sol tem massa cerca de 27 milhões de vezes maior que a da Lua, mas fica quase 400 vezes mais longe. Como o efeito de maré enfraquece muito com a distância, ele acaba tendo menos da metade da influência da Lua. Mesmo assim faz diferença. Conforme os três astros se alinham, as forças se somam ou se atrapalham:
| Fase da Lua | Posição dos astros | Tipo de maré | O que se vê |
|---|---|---|---|
| Nova e cheia | Sol, Terra e Lua alinhados | Sizígia, ou maré viva | Alta mais alta, baixa mais baixa |
| Crescente e minguante | Sol e Lua em ângulo reto em relação à Terra | Quadratura, ou maré morta | Pouca diferença entre alta e baixa |
Note que a Lua cheia e a nova têm efeito parecido. Na nova, a Lua e o Sol ficam do mesmo lado da Terra. Na cheia, ficam em lados opostos, mas os dois volumes de água continuam na mesma linha. A órbita da Lua também é oval, e, quando ela passa mais perto de nós em uma fase de sizígia, a maré tende a ficar ainda maior.
Por que o mar de São Luís sobe tanto
Se a Terra fosse uma bola lisa coberta de água, a altura da maré dependeria só dos astros. No mar aberto, ela é modesta. O que amplifica o fenômeno é a forma da costa. Quando a onda de maré entra em uma baía larga que vai se estreitando e ficando rasa, a água é espremida e sobe mais, como em um funil. A profundidade da plataforma continental também conta, e o Maranhão reúne essas condições.
O Golfão Maranhense tem marés semidiurnas, com amplitude média acima de 4 metros e picos perto de 8 metros, as maiores do Brasil. No mundo, o exemplo clássico é a Baía de Fundy, no Canadá, onde a diferença passa de 15 metros. No Sul do Brasil a variação costuma ficar em torno de um metro ou menos, e a praia parece praticamente igual ao longo do dia.
Quando a maré sobe o rio: a pororoca
Na Amazônia, a maré aparece de um jeito espetacular. Em alguns rios do Pará e do Amapá, em épocas de grandes marés, a água do mar entra pela foz e forma uma onda que corre rio acima, derrubando galhos e fazendo um barulho forte. O nome vem do tupi e costuma ser associado à ideia de estrondo. O fenômeno virou até atração para surfistas, com uma etapa famosa em São Domingos do Capim, no Pará, onde há anos se fazem competições na onda do rio.
A água também muda a rotina no interior. Em Belém e em comunidades ribeirinhas, a maré altera o nível dos rios e o acesso a portos e igarapés. Os barcos saem e chegam conforme ela, e a enchente ligada à maré pode atingir áreas baixas nos dias de grande amplitude.
Quem vive olhando a tábua de marés
A previsão da maré é um dos cálculos mais antigos da ciência aplicada, porque os astros têm movimentos regulares. No Brasil, a Marinha publica as tábuas de marés para os principais portos. Elas importam para muita gente:
- Pescadores e marisqueiras: programam a saída e a coleta de mariscos conforme a maré baixa.
- Catadores de caranguejo: o trabalho no mangue depende do nível da água, que inunda e descobre as raízes.
- Portos: navios grandes às vezes esperam a maré alta para passar em canais rasos.
- Surfistas e banhistas: a forma das ondas muda com o nível do mar, e certas piscinas naturais, como as de Maragogi e Porto de Galinhas, aparecem na maré baixa.
Os manguezais brasileiros, por sinal, são ecossistemas moldados pela maré. A água entra e sai trazendo nutrientes, e plantas e animais do local são adaptados a viver parte do tempo submersos e parte no seco. Um bicho que dá bem a ideia é o caranguejo-uçá, que depende desse ritmo para a sua rotina no mangue.
Marés também não são ressaca
A maré astronômica é previsível com meses de antecedência. Já a ressaca é causada por ventos fortes e tempestades no mar. Quando as duas coincidem, como em uma frente fria durante a Lua cheia, a água pode avançar sobre calçadões e vias litorâneas. Baixa pressão atmosférica também ajuda o nível a subir um pouco. Por isso o aviso de ressaca não vem da tábua, mas dos boletins meteorológicos.
Em um lago ou em uma piscina a maré não é perceptível: a massa de água é pequena demais para que a diferença de atração entre as pontas produza algo visível. Até o Mediterrâneo tem marés pequenas, porque é um mar quase fechado.
Energia das marés e uma Lua que se afasta
Tanta água em movimento chama atenção como fonte de energia. A usina de La Rance, na França, opera desde os anos 1960, e a de Sihwa, na Coreia do Sul, é outra das grandes. Barragens em estuários aproveitam a diferença de nível da mesma forma que uma hidrelétrica. No Maranhão, estudos analisaram o potencial da baía de São Marcos e da barragem do Bacanga, em São Luís, mas o custo e o impacto ambiental são obstáculos para esse tipo de projeto.
Há ainda uma consequência cósmica. O atrito das marés funciona como um freio bem suave na rotação da Terra, que vai ficando mais lenta: o dia aumenta cerca de dois milésimos de segundo a cada século. Em troca, a Lua ganha energia e se afasta perto de 3,8 centímetros por ano, medida feita com lasers disparados contra espelhos deixados pelas missões Apollo. Daqui a muito tempo, as marés serão diferentes das que os barcos de São Luís enfrentam hoje.