Como as vacinas agem no corpo

Em novembro de 1904, o centro do Rio de Janeiro virou praça de guerra. Bondes foram tombados, lampiões quebrados e barricadas erguidas nas ruas, em meio à revolta contra a vacinação obrigatória de varíola promovida pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. Mais de um século depois, a varíola não existe mais em lugar nenhum do planeta, e o motivo é o mesmo princípio aplicado naquelas agulhas. Saber como as vacinas agem no corpo é entender um truque simples: ensinar a defesa do organismo a reconhecer um inimigo sem precisar passar pela doença.

Um treino com inimigo de mentira

Quando um vírus ou uma bactéria invade o corpo pela primeira vez, a defesa específica leva dias para se organizar. Nesse intervalo, o micróbio se multiplica, e a pessoa adoece, às vezes gravemente. A vacina antecipa essa etapa. Ela apresenta ao organismo uma amostra segura do agente, ou apenas um pedaço dele. O sistema imunológico reage como se fosse real, mas sem o perigo da infecção.

O que acontece depois da picada segue uma sequência bem conhecida:

  1. Apresentação. Células de defesa no local da aplicação capturam o conteúdo da vacina, e por isso o braço pode ficar dolorido.
  2. Transporte. Essas células levam o material até os gânglios linfáticos, onde ficam os linfócitos.
  3. Seleção. Os linfócitos capazes de reconhecer aquele alvo são ativados e se multiplicam.
  4. Produção de anticorpos. Os linfócitos B passam a fabricar proteínas que grudam no invasor, enquanto os linfócitos T aprendem a achar células infectadas.
  5. Memória. Parte dessas células permanece no corpo por anos, pronta para reagir depressa em um contato real.

A palavra memória aqui não é só comparação com a memória do cérebro: em ambos os casos, uma experiência deixa uma marca que muda a reação futura. A proteção completa geralmente leva algumas semanas, e o prazo varia conforme a vacina. Por isso alguém pode adoecer logo depois de se vacinar: a proteção ainda estava em construção, ou a pessoa já tinha sido infectada sem saber.

Por que tantas doses e tantos reforços

Algumas vacinas dão bom resultado com uma única aplicação, enquanto outras precisam de duas, três ou mais. A dose seguinte funciona como uma revisão da matéria: reativa as células de memória, que se multiplicam de novo e ficam ainda mais eficientes. Com o passar dos anos, a proteção de certas vacinas cai, como acontece com tétano, que tem reforços ao longo da vida adulta.

A vacina da gripe tem outro motivo para ser repetida: o vírus muda com frequência, e a composição é atualizada para acompanhar as variantes em circulação. As vacinas do calendário e as doses indicadas para cada idade estão no calendário do Ministério da Saúde, e o profissional da unidade de saúde pode orientar conforme a caderneta de cada pessoa.

Seis formas de mostrar o inimigo ao corpo

A ideia central é sempre a mesma, mas a tecnologia muda. Cada tipo tem vantagens e cuidados próprios:

Tipo O que contém Exemplos
Atenuada Micróbio vivo enfraquecido Febre amarela, tríplice viral, BCG
Inativada Micróbio morto Gripe, poliomielite injetável, hepatite A
De subunidade Só uma parte do micróbio Hepatite B, HPV
Toxoide Toxina tratada, sem efeito tóxico Tétano, difteria
Vetor viral Vírus inofensivo levando a instrução Uma das vacinas usadas contra a covid-19
RNA mensageiro Molécula com a receita de uma proteína do vírus Uma das vacinas usadas contra a covid-19

As vacinas de RNA mensageiro não alteram o DNA de quem recebe. A molécula fica fora do núcleo da célula, onde o DNA está guardado, e se degrada em pouco tempo. Depois de entregar a instrução, ela some, e fica apenas a resposta do sistema imunológico. Os estudos que tornaram essa tecnologia viável valeram o Nobel de Medicina de 2023 à húngara Katalin Karikó e ao americano Drew Weissman.

As atenuadas são muito eficazes, mas, por conterem micróbio vivo, nem sempre são indicadas para gestantes e pessoas com a imunidade muito baixa. É mais um motivo para informar a sua condição de saúde antes da aplicação.

Febre, braço dolorido e reações raras

Dor no local, leve febre e cansaço por um ou dois dias costumam ser sinais de que a resposta imune está em andamento. Na vacina BCG, aplicada em recém-nascidos, a pequena ferida que vira cicatriz no braço direito é esperada. Reações graves existem, mas são raras, e as vacinas são monitoradas mesmo depois de aprovadas. Qualquer efeito forte ou que preocupe deve ser avaliado em um serviço de saúde.

Alguns boatos insistem em circular. A vacina inativada da gripe não pode causar gripe, porque não contém vírus vivo. E a ideia de que vacinas causam autismo veio de um artigo de 1998 que a revista The Lancet retirou em 2010, depois de ficar claro que o trabalho tinha falhas graves. Estudos com grandes populações não encontraram essa relação.

A proteção de quem não pode se vacinar

Bebês muito novos e pessoas em tratamento contra o câncer, por exemplo, podem não ser vacinados ou responder mal à vacina. Eles dependem dos demais. Quando grande parte da população está imune, o micróbio encontra poucos corpos onde se multiplicar, e a corrente de transmissão se quebra. Esse efeito é chamado de imunidade coletiva. O sarampo, muito contagioso, exige que cerca de 95% das pessoas estejam protegidas para funcionar.

De uma vaca inglesa ao Zé Gotinha

A palavra vacina vem do latim “vacca”, e essa origem tem história. Em 1796, o médico inglês Edward Jenner observou que ordenhadoras que pegavam uma doença leve das vacas não adoeciam de varíola. Ele testou a ideia em um menino, James Phipps, com material de uma lesão, um experimento que hoje seria inaceitável, e notou que ele ficava protegido.

No Brasil, os marcos mais lembrados são estes:

  • 1973: criação do Programa Nacional de Imunizações, o PNI, referência internacional. As vacinas do calendário são oferecidas de graça pelo SUS.
  • 1980: a Organização Mundial da Saúde declara a varíola erradicada no mundo.
  • Anos 1980: surge o Zé Gotinha, personagem que ajudou a popularizar a vacinação de crianças contra a poliomielite.
  • 1989: último caso registrado de poliomielite por vírus selvagem no Brasil, em Sousa, na Paraíba.
  • 1994: a região das Américas recebe o certificado de eliminação da poliomielite.

A gotinha oral, símbolo de várias gerações, vem sendo substituída pela versão injetável, em linha com a mudança no esquema nacional. O nome do personagem ficou, mesmo com a vacina saindo do formato que o inspirou.

Laboratórios brasileiros na linha de frente

O país também produz. O Instituto Butantan, em São Paulo, e a Bio-Manguinhos, ligada à Fiocruz, no Rio, fornecem doses de várias vacinas para o SUS. Um exemplo recente: em novembro de 2025, a Anvisa aprovou a Butantan-DV, vacina contra a dengue desenvolvida no Brasil e apresentada como a primeira do mundo em dose única contra a doença, para pessoas de 12 a 59 anos na aprovação inicial.

O mecanismo por trás dela não é tão diferente do que Jenner observou há mais de dois séculos. A diferença é que, em vez de sorte e observação em um curral, o processo hoje inclui anos de testes clínicos e a análise de agências reguladoras. Quem tem dúvida sobre a própria situação pode levar a caderneta a um posto de saúde, onde o profissional confere o que está em dia.

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