Egito Antigo: Nilo, pirâmides, faraós e curiosidades

Cleópatra, a mais famosa rainha do Egito Antigo, viveu mais perto da chegada do homem à Lua do que da construção da Grande Pirâmide. Parece brincadeira, mas a conta fecha: a pirâmide foi erguida por volta de 2560 a.C., Cleópatra morreu em 30 a.C. e Neil Armstrong pisou na Lua em 1969. Isso dá uma ideia da duração dessa civilização, que atravessou cerca de três mil anos às margens de um único rio. Para os brasileiros, há ainda um laço inesperado: uma das maiores coleções egípcias da América Latina esteve no Rio de Janeiro.
Um país inteiro que dependia das cheias
O historiador grego Heródoto, que visitou a região no século V a.C., chamou o Egito de dádiva do Nilo. Basta olhar um mapa para entender: em volta há deserto, e a vida se concentra em uma faixa verde ao longo do rio, que deságua no Mediterrâneo.
Todos os anos, chuvas distantes nas montanhas da Etiópia e na África Central engrossavam o rio, que transbordava entre o verão e o outono. Quando as águas baixavam, deixavam um lodo fértil. Esse fenômeno é parte do grande ciclo da água na natureza, e os egípcios organizaram toda a vida em torno dele, com três estações: a da inundação, a do plantio e a da colheita.
Para aproveitar a água, construíram canais e reservatórios. Para cobrar impostos sobre a safra, mediram a altura da cheia, com escalas chamadas nilômetros. Para refazer as divisas dos campos depois das enchentes, desenvolveram técnicas de medição. Daí uma das explicações para o avanço da geometria na região. O calendário de 365 dias também nasceu dessa observação cuidadosa do tempo.
Reis, deuses e três grandes reinos
Por volta de 3100 a.C., o Alto e o Baixo Egito foram unificados por um governante que a tradição chama de Menés. Os egiptólogos dividem a história posterior em dinastias e em grandes períodos.
| Período | Datas aproximadas | Características |
|---|---|---|
| Antigo Reino | 2686 a 2181 a.C. | Era das grandes pirâmides |
| Médio Reino | 2055 a 1650 a.C. | Reunificação e florescimento da literatura |
| Novo Reino | 1550 a 1069 a.C. | Império militar, Vale dos Reis, Ramsés II |
| Período greco-romano | 332 a.C. a 395 d.C. | Ptolomeus, Cleópatra e domínio de Roma |
O faraó era visto como intermediário entre os deuses e as pessoas, responsável por manter a maat, a ordem do mundo. Abaixo dele vinham sacerdotes, escribas, soldados e, na base, os camponeses, que formavam a grande maioria da população.
Havia mulheres no poder, algo raro no mundo antigo. Hatshepsut governou como faraó no século XV a.C. e aparece em algumas estátuas usando a barba cerimonial, símbolo da realeza. Quanto às egípcias em geral, tinham direitos que surpreendem: podiam possuir bens, abrir processos e pedir divórcio.
Quem de fato construiu as pirâmides
O filme de Hollywood mostra filas de escravos sob chicotadas, mas as descobertas arqueológicas contam outra história. Perto de Gizé, foram encontrados povoados de trabalhadores, com padarias, cervejarias e cemitérios próprios. As ossadas revelam que alguns tiveram ossos quebrados e tratados, um sinal de cuidado. Hoje, o entendimento mais aceito é que a obra foi feita por equipes organizadas de egípcios, em parte recrutados por períodos, que recebiam pão e cerveja como forma de pagamento.
Em 2013, papiros encontrados em Wadi al-Jarf, junto ao Mar Vermelho, trouxeram um registro raro: o diário de um inspetor chamado Merer, que anotava o transporte de blocos de calcário de barco para a Grande Pirâmide. Eles estão entre os papiros escritos mais antigos que se conhecem, com detalhes tão comuns que quase parecem um relatório de obra.
A Pirâmide de Quéops tinha originalmente cerca de 146 metros de altura e foi a estrutura mais alta do mundo por milênios. Seu revestimento de calcário branco polido refletia o sol, mas foi retirado ao longo dos séculos para outras construções. A pedra que hoje se vê é o miolo.
Setenta dias para preparar um corpo
Os egípcios acreditavam que a vida seguia depois da morte, desde que o corpo fosse preservado e a pessoa passasse por um julgamento, em que seu coração era pesado contra a pena da deusa Maat. Daí a mumificação, feita de maneira mais elaborada para quem podia pagar.
- Os embalsamadores retiravam os órgãos internos, geralmente deixando o coração no lugar.
- O cérebro era extraído e descartado, já que não se dava muita importância a ele.
- O corpo ficava coberto de natrão, um sal natural, para secar.
- Depois, era ungido com resinas e enrolado em faixas de linho, com amuletos entre as camadas.
Todo o processo levava cerca de 70 dias, segundo Heródoto e outras fontes. Gatos, íbis e crocodilos também eram mumificados, muitos como oferenda aos deuses.
A escrita que ficou muda por quase 1.500 anos
Os hieróglifos combinavam sinais que representavam sons e ideias. Nos templos, eram gravados em pedra. No dia a dia, os escribas usavam formas mais rápidas sobre papiro, material feito com uma planta do Nilo, de cujo nome vem a palavra papel. Quem quiser ver como isso se encaixa no surgimento de outros sistemas pode ler sobre a história da escrita.
Com o fim da antiga religião, o conhecimento dos hieróglifos se perdeu. A inscrição mais recente conhecida é do fim do século IV d.C. Em 1799, soldados de Napoleão acharam em Roseta uma pedra com o mesmo texto em hieróglifos, em escrita demótica e em grego. Comparando as versões, o francês Jean-François Champollion anunciou a decifração em 1822, o mesmo ano da Independência do Brasil.
Sarcófagos no Rio de Janeiro
Dom Pedro I adquiriu uma coleção de peças egípcias que foi parar no acervo do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. Seu filho, dom Pedro II, foi além: estudou a língua, correspondeu-se com egiptólogos e viajou ao Egito em duas ocasiões. Na segunda, em 1876, recebeu de presente do quediva Ismail o caixão da cantora Sha-Amun-en-su, que nunca tinha sido aberto.
Havia centenas de peças quando o incêndio de 2 de setembro de 2018 devastou o Museu Nacional. O caixão de Sha-Amun-en-su se perdeu, e pesquisadores do museu resgataram parte do acervo egípcio nos escombros, inclusive amuletos ligados a essa múmia. O trabalho de reconstrução segue, e o caso virou um exemplo mundial da importância de proteger o patrimônio.
Curiosidades do cotidiano às margens do Nilo
- Maquiagem com utilidade. Homens e mulheres usavam kohl em volta dos olhos, e pesquisas sugerem que esse pó ajudava a proteger de infecções e do reflexo do sol.
- Pão e cerveja como salário. A base da alimentação eram esses dois itens, e muitos pagamentos eram feitos em comida, pois não havia moedas.
- Um túmulo quase intacto. Em 1922, o inglês Howard Carter achou a tumba de Tutancâmon com milhares de objetos, entre eles a famosa máscara de ouro. O faraó morreu ainda adolescente.
- O primeiro registro de uma greve. Por volta de 1150 a.C., operários de Deir el-Medina, que construíam tumbas reais, pararam o trabalho por atraso na entrega de rações, no reinado de Ramsés III.
Cleópatra VII, por sua vez, nem era de origem egípcia. Sua família, a dos Ptolomeus, descendia de um general macedônio de Alexandre, o Grande. Fontes antigas dizem que ela foi a primeira de sua dinastia a aprender a língua egípcia. Sua morte, em 30 a.C., coincidiu com a transformação do Egito em província romana, e o trigo do Nilo passou a alimentar Roma. Terminava ali o Egito independente dos faraós, depois de três mil anos, em uma terra onde o rio continua sendo o endereço da maioria da população.