Invenção da imprensa: de Gutenberg à chegada ao Brasil

Antes de meados do século XV, uma Bíblia completa na Europa podia exigir anos de trabalho de um copista. Por volta de 1455, na cidade alemã de Mainz, uma oficina terminou cerca de 180 exemplares do mesmo livro, com letras tão bem alinhadas que pareciam escritas por um mestre. O ourives Johannes Gutenberg tinha combinado metal, tinta e uma prensa, e a invenção da imprensa entrava para a história. Ela não foi a primeira forma de imprimir, nem foi obra de um gênio solitário, mas mudou a maneira como as ideias circulam, algo que só a internet viria a abalar de forma comparável.
Antes de Gutenberg, a China e a Coreia já imprimiam
A impressão nasceu na Ásia. Os chineses já gravavam textos em blocos de madeira, passavam tinta e pressionavam papel sobre eles, técnica chamada xilogravura. O Sutra do Diamante, de 868, é um dos livros impressos com data mais antigos que se conhecem e está na Biblioteca Britânica.
Por volta de 1040, o artesão chinês Bi Sheng criou tipos móveis de argila, ou seja, caracteres avulsos que podiam ser rearranjados. A invenção foi descrita pelo sábio Shen Kuo. Na Coreia, tipos de metal foram utilizados antes da Europa, e o Jikji, um texto budista de 1377, é o livro mais antigo que restou impresso dessa forma.
Se a técnica existia, por que não transformou tudo na Ásia da mesma maneira? Uma resposta está na língua. O chinês escrito usa milhares de caracteres, o que tornava trabalhoso manter um estoque de tipos. Os alfabetos europeus têm poucas letras, e isso facilitava bastante a tarefa. A história da escrita ajuda a entender essa diferença.
Na Idade Média europeia, os livros eram copiados à mão, principalmente em mosteiros e, depois, em oficinas urbanas ligadas às universidades. Eram raros e caros, feitos em pergaminho, que vinha de pele de animal. O papel, inventado na China, só chegou à Europa séculos depois, passando pelo mundo árabe, e foi outro ingrediente indispensável.
Quatro peças que Gutenberg juntou
O sistema desenvolvido em Mainz não era uma única invenção, e sim um conjunto de soluções que funcionavam juntas:
- Tipos de metal fundido. Com um molde manual, era possível produzir milhares de letras idênticas, em uma liga à base de chumbo, estanho e antimônio. O conhecimento de ourivesaria de Gutenberg foi decisivo aqui.
- Tinta à base de óleo. A tinta aquosa dos copistas não aderia bem ao metal. Foi preciso criar uma tinta mais espessa.
- Prensa de rosca. A inspiração vinha de prensas já usadas para fazer vinho e óleo, adaptadas para pressionar o papel de maneira uniforme.
- Composição manual. O tipógrafo formava as linhas letra por letra em uma pequena régua, de trás para frente, e depois montava a página.
Depois de impressa a tiragem, os tipos eram desmontados e usados em outro texto. A maior vantagem estava aí: copiar uma página mil vezes passava a custar menos do que copiar mil páginas diferentes.
A Bíblia de 42 linhas e um negócio que deu errado
O projeto mais famoso da oficina foi a Bíblia em latim, chamada Bíblia de 42 linhas, por causa do número de linhas por coluna. A tiragem costuma ser estimada em cerca de 180 cópias, parte em papel e parte em pergaminho, com números que variam conforme os estudiosos. As iniciais coloridas eram feitas à mão, depois da impressão, para que o livro lembrasse os manuscritos de luxo. Cerca de 49 exemplares sobrevivem, completos ou em partes, e são peças valiosíssimas de bibliotecas e museus.
A inovação custou caro. Gutenberg tomou empréstimos com o financista Johann Fust. Em 1455, Fust foi à Justiça cobrar a dívida e acabou ficando com boa parte do equipamento. Quem ganhou dinheiro foi ele, junto com Peter Schöffer, um antigo assistente da oficina. Gutenberg, que se tornou um dos nomes mais conhecidos da história, morreu em 1468, sem grande fortuna.
Da oficina de Mainz à Europa inteira em poucas décadas
A técnica se espalhou depressa, levada por tipógrafos que saíam de Mainz. Veneza se tornou um grande centro de impressão, e o italiano Aldo Manuzio ficou famoso por lançar livros de formato menor e pelo uso do itálico. Em 1476, William Caxton instalou a primeira prensa na Inglaterra. Até 1500, as prensas europeias já tinham produzido milhões de volumes. Os livros impressos até esse ano recebem hoje o nome de incunábulos, palavra que remete a berço.
| Efeito | O que mudou |
|---|---|
| Preço do livro | Caiu com o tempo, e mais gente passou a comprar |
| Padronização | Os leitores de várias cidades passaram a ler textos iguais |
| Ciência | Tabelas e desenhos deixaram de sofrer erros de cópia a cada edição |
| Línguas nacionais | Obras em alemão, francês e italiano ganharam leitores, ajudando a fixar a grafia |
| Religião e política | Panfletos alcançaram públicos inteiros em pouco tempo |
O caso mais citado é o da Reforma Protestante. Em 1517, Martinho Lutero divulgou suas 95 teses contra a venda de indulgências. Em pouco tempo, cópias impressas circulavam pela Alemanha. Sua tradução da Bíblia para o alemão vendeu muito. A própria Igreja Católica reagiu com a imprensa, publicando documentos e criando, no século XVI, uma lista de livros proibidos. A censura e a prensa nasceram praticamente juntas.
No Brasil, a prensa só chegou com a corte portuguesa
Portugal restringia a impressão em sua colônia americana. Por volta de 1747, o tipógrafo Antônio Isidoro da Fonseca chegou a montar uma oficina no Rio de Janeiro, mas uma ordem real mandou encerrar a atividade.
A virada veio com a chegada de dom João. Em 13 de maio de 1808, um decreto criou a Impressão Régia no Rio. De lá saiu, em 10 de setembro daquele ano, a Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal impresso no Brasil, um periódico oficial. Pouco antes, em junho, Hipólito José da Costa tinha lançado em Londres o Correio Braziliense, publicado no exterior para fugir à censura. A Impressão Régia deu origem à atual Imprensa Nacional, que publica o Diário Oficial da União, o mesmo em que saem leis, nomeações e regras de benefícios.
Por causa dessa origem, até hoje se fala em imprensa para se referir ao jornalismo, mesmo em um site que não usa papel algum.
Palavras do ofício que continuam na nossa língua
- Maiúscula e minúscula. Em inglês, as letras se chamam uppercase e lowercase, porque ficavam na caixa de cima e na de baixo. Por isso, os computadores falam em “caixa alta”.
- Clichê. Era uma chapa pronta com palavras repetidas, usada para evitar compor tudo de novo. Daí a palavra passou a designar frase batida.
- Prelo. Livro “no prelo” é o que está para ser impresso, expressão que editoras ainda usam.
- Fonte. O nome dado à letra em um programa de texto vem da fundição dos tipos de metal.
Do chumbo ao toque na tela
A prensa de Gutenberg, com poucas melhorias, durou séculos. A primeira prensa a vapor apareceu em 1814, nas oficinas do jornal The Times, em Londres. No fim do século XIX, as máquinas de linotipo compunham linhas inteiras de chumbo. No século XX, a impressão offset e a composição por computador substituíram os tipos de metal.
Quem lê uma notícia pelo celular faz parte de uma história semelhante, com questões bem parecidas: quem controla a informação, como confiar no que circula, como separar boato de fato. A história da internet mostra que muito do que parece novo já foi visto em uma oficina de Mainz, quando alguns poucos exemplares de papel começaram a deixar o mundo mais barulhento e mais letrado.